a vida acontecendo

A vida acontecendo

Todas as manhãs começam assim.

A casa desperta devagar. A água esquenta. O café passa.

Alguém ainda está no colo. Alguém já corre pela sala.
Alguém organiza o tempo entre a mamada, a mochila e o relógio.

Nada extraordinário. E, ainda assim, tudo.

O café da manhã em família não é um evento.
É um hábito. É repetição. É presença diária.

É ali que os olhares se encontram antes do mundo chamar.
É ali que o corpo ainda está perto.
É ali que a infância acontece sem saber que está acontecendo.

A fotografia documental mora nesse espaço.

Não no raro. Mas no recorrente.

Na xícara segurada sempre do mesmo jeito.
Na cadeira ocupada todos os dias.
Na despedida que se repete — mas nunca é igual.

Porque um dia essa mesa muda.
Um dia a rotina muda. Um dia o café já não reúne todos ali.

E é por isso que guardar o cotidiano é guardar a vida.